Bactéria no Estômago Pode Virar Câncer?

publicado em 8 de janeiro de 2019

A bactéria Helicobacter pylori ou, apenas H. pylori, é uma espécie de bactéria muito conhecida pela infecção crônica que causa no estômago dos seres humanos. Essa infecção inclusive é uma das principais causas da gastrite crônica. Cada vez mais a frequência de pessoas com infecção pelo H. pylori aumenta, no geral, na população, o que fez com que aumentassem as pesquisas acerca dessa bactéria e das repercussões que sua infecção pode causar no estômago, além de possíveis alterações sistêmicas.

Uma das pesquisas que acabou sendo desenvolvida sobre a relação do H. pylori com a saúde humana foi o desenvolvimento de câncer de estômago ou câncer gástrico, como também pode ser chamado, devido à infecção crônica por essa bactéria. O H. pylori é o responsável por até um pouco mais de 95% de todos os casos de gastrite crônica. Isso ocorre porque, de uma maneira geral, quando essa bactéria coloniza a região do estômago conhecida como mucosa gástrica, ela costuma não encontrar nenhum outro microrganismo que a combata, isto é, ela não apresenta nenhum competidor e, como as infecções passam por um período assintomático, o indivíduo também não percebe a infecção e, portanto, não toma medidas para combate-la, exceto quando do desenvolvimento da gastrite, o que já se configura como uma fase um pouco mais avançada.

 

Outra característica que favorece a permanência do H. pylori e seu amplo acometimento nas pessoas é sua adaptação ao ambiente do estômago de nós seres humanos, o que, ao longo do tempo, fez com que nós perdêssemos a capacidade de eliminar esse microrganismo de maneira espontânea, apesar de desenvolvermos resposta imunológica contra esse agente de maneira normal, como para a maioria das outras bactérias. Apenas algumas crianças ainda conseguem eliminar o H. pylori sem a realização de um esquema de antibioticoterapia específico, como é utilizado em larga escala em adultos que apresentam gastrite e presença de H. pylori na mucosa gástrica.

 

Histologicamente, a gastrite causada pelo H. pylori pode ter intensidade bastante variável, o que vai depender da quantidade de bactérias no local, o grau de desenvolvimento de resposta imunológica e também do tempo de infecção. A principal região do estômago a ser colonizada por essa bactéria é o chamado antro gástrico, embora o corpo também esteja entre uma das regiões mais acometidas, podendo também estar localizada em todo o estômago, o que, nesse caso, é chamado de pangastrite. O principal fator que determinará o padrão evolutivo da gastrite é justamente como a bactéria se distribui ao longo do órgão.

A gastrite crônica pode fazer com que a configuração normal da mucosa gástrica sofra alterações, devido à mudança da secreção de ácido pelas células estomacais, uma vez que elas sofrem com a infecção pela bactéria. Essa alteração da conformação celular da mucosa é conhecida como metaplasia, que está relacionada a uma atrofia significativamente relevante da mucosa, o que faz com que a chance do desenvolvimento do chamado carcinoma gástrico se eleve entre três e quatro vezes no indivíduo.

O câncer de estômago se encontra entre um dos problemas mais relevantes na população mundial, uma vez que o seu diagnóstico, na maioria das vezes, é realizado em uma fase mais tardia e, portanto, mais evoluída da doença, o que acaba fazendo com que a maioria dos indivíduos acometidos apresentem um prognóstico não tão bom quanto seria se a doença tivesse sido descoberta em uma fase inicial, como ocorre em quase todos os tipos de canceres. Alguns genótipos estão relacionados diretamente ao desenvolvimento de câncer gástrico, como os chamados genes cagA e vacA presentes na bactéria.

De acordo com alguns estudos, as alterações na mucosa relacionadas à infecção pelo H. pylori seguem uma sequência de transformações, sendo inicialmente, em decorrência da gastrite crônica, a ocorrência de uma atrofia de glândulas estomacais, seguindo-se, posteriormente e, geralmente após alguns anos, a ocorrência da chamada metaplasia intestinal, que é considerado o estágio final da evolução e da sequência das transformações que podem ocorrer secundariamente à infecção pelo H. pylori.

Essa metaplasia nada mais é que a alteração da conformação celular do tipo mucosa estomacal para um tipo celular do tipo intestinal, ou seja, é como se o estômago passasse a apresentar características do intestino, inclusive de qualquer porção intestinal. No entanto, é sabido que a evolução para câncer ocorre na grande minoria das vezes, embora a ocorrência de metaplasia seja alta. Essa discrepância ocorre porque, na teoria, não é pura e simplesmente a bactéria em si que irá desenvolver o câncer gástrico por si só.

O câncer é uma doença multifatorial, isto é, são vários os fatores que contribuem para o seu desenvolvimento. Um desses fatores, bastante apontados pelos pesquisadores, é a relação da alimentação com o desenvolvimento de câncer, sendo este um dos fatores ambientais mais importantes já apontados pela ciência. Sendo assim, o câncer gástrico devido à infecção pela bactéria H. pylori é apontado como aproximadamente apenas 1% de todos os casos de câncer gástrico, o que faz com que os demais fatores predisponentes para câncer apresentem uma maior relevância.

Fonte: Saúdeculturamix: